Artigo: Salvador e o conceito de cidade andável – Deputado Aleluia

Artigo: Salvador e o conceito de cidade andável

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por José Carlos Aleluia

No livro “Triumph of The City” (Triunfo da Cidade), do americano Edward Glaeser, o autor defende a vida urbana – “que nos faz mais ricos, inteligentes, saudáveis e felizes” – desfazendo alguns mitos e falando da importância da aglomeração social para o nosso desenvolvimento. Ele usa exemplos do surgimento de cidades a partir de características específicas que ajudaram uma determinada população a prosperar.

São considerações que me levaram a pensar na história de Salvador. Se o sucesso de uma cidade está atrelado aos benefícios que uma aglomeração pode oferecer, e se cidades antigas preservam em seus bairros tradicionais características que foram necessárias para o desenvolvimento deste espaço coletivo, o que podemos aprender com os bairros antigos da capital baiana?

Faço esta provocação para entrar em um tema que tenho me interessado. A nova proposta de “cidade andável” e o curioso conceito de “andabilidade”. Em entrevista ao jornal inglês The Guardian, a urbanista neozelandesa Skye Duncan diz que, por muito tempo, nossas cidades têm feito a pergunta errada – “como mover os carros?” – quando deveriam perguntar: “como mover pessoas?” Isso não se resume ao transporte coletivo ou bicicletas. Segundo ela, ao falharmos em pensar no pedestre, estamos ignorando parte essencial do que faz uma cidade o que ela é.

Certa vez meu amigo Rogério Rosso, ex-governador do Distrito Federal, contou-me de quando teve a oportunidade de visitar Niemeyer e ouviu do arquiteto uma mágoa sobre Brasília: a Praça dos Três Poderes, tal qual projetada por ele e Lúcio Costa, tinha uma equidistância de 200 metros entre Congresso, Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal para incentivar a circulação de pedestres. E que quase ninguém fazia isso.

E Salvador? Pisos compartilhados e novos espaços de convívio resgataram regiões turísticas, a exemplo de Barra, Rio Vermelho, Itapuã e Ribeira. Mas como falar em “cidade andável” numa metrópole de 3 milhões de habitantes marcada pela desordem urbana e violência epidêmica? Duncan explica que bairros que ampliam vias compartilhadas e estimulam o transporte a pé têm como retorno a valorização no preço dos imóveis e crescimento no comércio local. Em Auckland, uma degradada zona comercial viu seu comércio crescer 47% ao ser remodelada com passeios públicos e áreas residenciais em lugares antes destinados a estacionamentos.

Na juventude, quando morava na Caixa D’Água, para o Barbalho, onde estudava, era um pulo. De lá, ia ao Cine Jandaia, na Baixa dos Sapateiros, ou à antiga Fonte Nova. Ao final do dia, uma esticada até a Praça Castro Alves, onde se comia a tradicional “feijoada do caminhão”. Se hoje a degradação afasta o pedestre dessas regiões, novos conceitos urbanos indicam que o caminho pode estar em observar o passado para projetar o futuro.

Artigo originalmente no jornal A Tarde do dia 04/06/2019